Santa Casa da Misericórdia de Óbidos

 

Semana Santa

Em Óbidos, a Semana Santa funciona como um ex-líbris.

Óbidos continua a ser um palco privilegiado de celebrações de acontecimentos de índole histórico-religiosa. Evocando a Paixão e a morte de Cristo, a Semana Santa atrai à Vila muitas pessoas, portuguesas e estrangeiras, unidas pela devoção ou simplesmente por curiosidade cultural e turismo religioso.

Despertando o maior interesse, a Semana Santa desde cedo se revelou como o melhor “cartaz” de Óbidos e inegavelmente, apresenta as mais lindas e impressionantes cerimónias religiosas do seu género realizadas no Oeste. Por este motivo, em 1963, por intermédio do então Subsecretário de Estado da Presidência do Conselho, Dr. José Venâncio Paulo Rodrigues, estas cerimónias foram incluídas no programa de promoção turística “Avril au Portugal”, assumindo uma dimensão que começava a ultrapassar as fronteiras do país.

Com a gradual recuperação das cerimónias da Semana Santa (e de outras), a comunidade obidense, desde a edilidade local aos particulares, motivados e empenhados em manter as tradições, têm sabido colher e reflectir sobre os testemunhos que se vão transmitindo de geração em geração, não só a título pessoal, mas também através de fotografias, escritos e recortes de jornais. Muitos dos actuais conhecimentos sobre as cerimónias tradicionais em Óbidos, foram coligidos e fazem parte da colecção privada de Albino de Castro e Sousa, sendo da sua autoria, a actual versão do “Auto do Descimento da Cruz”, tradição ancestral que remonta, pelo menos, a meados do século XVII.

Devido ao espaço que se tornava reduzido dentro da Igreja da Misericórdia e mais tarde na Praça de Santa Maria, ricamente adornada com vistosas colchas nas janelas, das quais se chegou a fazer grande ostentação, hoje, esta impressionante cerimónia é realizada na cerca do castelo, sem o menor sussurro entre os milhares de pessoas que assistem ao prolongado Acto, e agora com mais figuras, a carga cenográfica tornou-se mais intensa e a representação adquiriu maior dramatismo.

Mas não só as igrejas e sobretudo o cenário monumental da nossa Vila, são palco propícios à realização das cerimónias religiosas.

Em Óbidos, permanece o respeito pelo sagrado e a meditação à passagem do Senhor Jesus dos Passos e dos figurantes que preenchem a evocação de cenas da vida de Jesus Cristo. Apesar de ser uma representação algo cénica, nada há que inspire falsa devoção. É uma tradição com alma que se repete, num ambiente de fé e recolhimento, mas que permite, também, um reatar de laços com a tradição e com a cultura mais arreigada de um povo.

Este cartaz da Semana Santa de Óbidos tem o seu início na realização da secular Procissão Penitencial da Ordem Terceira de S. Francisco, vulgarmente conhecida pela Procissão da Rapaziada, preparando o “caminho interior” da Quaresma. Nesta manifestação religiosa desfilam nove andores exuberantemente decorados com flores, onde se exibem alguns dos principais Santos da devoção franciscana.

Não se trata pois de um rivalismo folclórico, mas sim duma manifestação religiosa com raízes profundas e em que se expressa, mais uma vez, o convite de S. Francisco de Assis, para a participação dos cristãos numa comunidade despida de valores supérfluos, sobretudo em período de recolhimento, como a Quaresma.

Esta manifestação religiosa tem merecido da parte da Associação de Defesa do Património do Concelho de Óbidos uma atenção, tendo conseguido apenas com o apoio do povo, angariar fundos para a recuperação das imagens e sensibilizar um grande grupo de jovens para a manutenção das tradições religiosas para a defesa e salvaguarda dos valores patrimoniais e culturais da comunidade, como factor de coesão e de identidade própria.

No Domingo de Ramos, num ambiente de oliveira, alecrim, rosmaninho e verdura pelo chão, tem lugar a majestosa procissão do Senhor Jesus dos Passos que percorre algumas ruas tortuosas, fora e dentro das muralhas de Óbidos, parando junto de pequenos oratórios evocativos dos Passos da Paixão, culminando na igreja da Misericórdia.

Este cortejo é aberto por uma figura tradicional, o gafaú, que caminha descalça, com a cabeça envolvida por um pano e transporta um instrumento musical, conhecido por serpentão. Esta figura representa o carrasco, que caminha à frente da procissão que acompanha o condenado, anunciando à multidão, que a aproximação do mesmo, está para muito breve.

O Auto do “Descimento da Cruz” culmina com a comovente procissão do Enterro do Senhor, realizada sem qualquer iluminação, a não ser os archotes que ardem nas mãos de jovens que se colocam em pontos chave do percurso processional. Esta cerimónia, não estando determinada pelas rubricas do Missal Romano, estabeleceu-se em Portugal pela devoção dos fiéis do século XV e princípios do século XVI. Como manifestação cultural é considerada o ponto alto das solenidades, em Óbidos.

No Domingo de Páscoa, assistia-se nos anos sessenta, à Procissão Eucarística, com as representações das paróquias e dos seus lugares, e em que, abria com o andor do Senhor Ressuscitado, magnífica imagem que data do século XVII e que se venerava na igreja de S. Tiago no Castelo (hoje no Museu Municipal).

Mais uma vez, a realização das Solenidades da Semana Santa vão responder ao mesmo tempo, aos imperativos da nossa fé e da nossa cultura, como partes integrantes da nossa herança social, revalorizada no presente.

Autor do texto: Carlos Orlando de Castro e Sousa Rodrigues  

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